O profissional, a empresa e a comunidade

Reflexões sobre o que está por vir

Enoch Filho*

Vivemos um momento peculiar de transição neste século. Em tempos de globalização[bb], o espaço local e regional ganham cada vez mais importância - o ambiente é, ao mesmo tempo, de extrema competição por parte das organizações e das pessoas, e de intensa busca por sustentabilidade[bb], desenvolvimento humano e social e bem-estar. Essa situação exige uma nova postura das empresas e demais instituições; então, se as organizações são formadas por pessoas, são elas – as pessoas – que devem ter uma maneira diferenciada de agir frente a estes desafios contemporâneos, não só enquanto cidadãos, mas enquanto profissionais, nas organizações em que atuam.

Com efeito, um dos grandes questionamentos que se faz hoje diz respeito ao desenvolvimento, e, em especial no âmbito local, que deve ser integrado e sustentável. Paradoxalmente, a globalização reforça essa idéia, na medida em que se vê a necessidade de localidades, setores, comunidades, etc, formarem uma espécie de identidade visando uma melhor inserção competitiva. Vendo o Desenvolvimento Local[bb] por outra ótica, trata-se de uma abordagem para compensar os efeitos excludentes do sistema econômico em curso, orientando uma forma de crescimento que aproveite com mais eficiência os recursos endógenos existentes numa zona determinada, para criar empregos e melhorar a qualidade de vida da população que ali reside. Complementar a isso, é importante desenvolver uma estratégia que repense o padrão de desenvolvimento atual sob o ponto de vista da sustentabilidade, tomando o local como elemento de transformação cultural, social, e econômica.

Tomando como mote o questionamento do padrão atual de desenvolvimento, tem-se buscado uma relação mais harmônica entre o capital, o ser humano e o meio-ambiente. Consequentemente, a sociedade aprova ou condena e pune práticas que tenham influência em seu bem-estar atual e futuro, e, se isso acontece, deve-se concordar que, para uma organização ser julgada favoravelmente, os profissionais que nela atuam necessariamente devem estar aptos a atender essas expectativas. Precisam estar preparados para executar seu trabalho em benefício de quem os contrata (ou conduzir seu próprio empreendimento), mas sempre ponderando o resultado de suas ações para a comunidade em que estão inseridos.

Qual é o perfil deste profissional[bb] voltado para o Desenvolvimento Local? Uma pessoa generalista e versátil, com formação multidisciplinar, e que percebe o movimento integrado entre o ambiente, as decisões tomadas e a visão de futuro – isto é, tem visão sistêmica. Para desempenhar suas funções, é capaz de acessar várias ferramentas e conceitos (planejamento estratégico, gestão ambiental, gestão do conhecimento, aprendizagem organizacional, etc), trabalhar em equipe, inclusive equipes virtuais.

Existem profissionais no mercado que se posicionam de tal maneira, que seus valores, objetivos, filosofia de vida, habilidades e competências se manifestam em sua carreira. E quem dirige a carreira do profissional, no século XXI, é a pessoa, e não mais a empresa/ instituição. Portanto, quem professa este paradigma de crescimento com responsabilidade, reluta em se vincular a organizações cujas práticas não estejam fundamentadas em conceitos éticos, pois sua reputação está diretamente relacionada à imagem da empresa que representa ou faz parte.

Haverá quem diga que tudo que foi dito aqui não passa de uma verborréia desvairada, que pode muito bem ser assim em países ditos de primeiro mundo; mas nunca, pelos próximos trocentos anos, se aplicaria a um município como Jequié. Mas insisto que não é uma realidade distante. Jequié tem sua importância regional, o processo de globalização faz com que tudo que acontece lá fora tenha repercussão aqui; a turma nova, que está se capacitando para entrar no mercado de trabalho, ou que está se reciclando, já tem em mente que o limite para sua atuação não têm fronteiras físicas, portanto, se preparam para desempenhar suas funções em qualquer lugar. Aos poucos, à medida que avança a educação, a mentalidade das pessoas vai sendo renovada, as organizações, tanto de interesse público, quanto de interesse privado, terão que se adequar aos reclames da sociedade.

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*Texto escrito em em março de 2004 para a Revista Contexto, de circulação municipal, coluna "Análise Regional".

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