Indústria de roupas vs Indústria de calçados (em Jequié, Ba)

Vejamos se há lógica em jogar para escanteio a indústria de confecções, e porque os sapatos se tornaram a menina dos olhos

Por Enoch Filho*

Jequié foi durante um bom tempo conhecida e reconhecida, em outras regiões do Estado e até do Brasil, como cidade que fabrica e vende roupas com preço bom e de boa qualidade. Mas, entre o final da década de 80 e durante os anos 90, sucessivas crises econômicas[bb] (decorrentes da conjuntura macroeconômica) fizeram com que se fechassem algumas indústrias, estabelecimentos comerciais e agências bancárias; e o setor de confecções, é claro, foi fortemente atingido. Em vez de buscar soluções para a indústria de roupas, passou-se a apostar no setor calçadista como novo vetor de crescimento para o município – este é um questionamento que povoa a mente de boa parte dos cidadãos jequieenses.

Antes de concluir apressadamente sobre o que é melhor para o município, convém analisar as entrelinhas saindo do âmbito das empresas vistas individualmente para olhar o espaço onde elas estão inseridas. A indústria de roupas, por ser fruto da iniciativa local e estar baseada em um número razoável de pequenas empresas, tem melhor condição de multiplicar e reter o excedente gerado aqui. O economista David Ricardo já apregoava, há dois séculos atrás, que cada região deve trabalhar em prol da maximização daquilo que sabe fazer melhor, e assim caminhar rumo ao crescimento econômico, desenvolvendo suas vantagens comparativas e competitivas. Além disso, múltiplos empregadores empregam vários trabalhadores. Se uma dessas empresas sair do mercado, serão poucos os desempregados a serem recolocados.

Já a indústria de calçados encontra expressão em uma fábrica de médio/grande porte, oriunda do sul do país. É preciso compreender que a política de interiorização da industrialização baiana foi feita até pouco tempo a partir de um planejamento de cima para baixo, sem considerar as vocações locais. O setor calçadista faz parte de uma estratégia do Governo da Bahia para alavancar a economia no interior do Estado. O que Jequié fez foi aproveitar este incentivo para atrair mais um investimento, pois havia a expectativa por consequências positivas, como o surgimento de economias externas (externalidades). Entende-se por externalidades, os benefícios obtidos por empresas que se formam (ou já existentes), em decorrência da implantação de uma indústria, proporcionando vantagens antes inexistentes. Assim, a implantação de uma fábrica de calçados faria surgir uma de solados, outra de cadarços, abrir-se-iam mais lanchonetes, etc.

A fábrica de calçados obteve alguns benefícios para vir se instalar aqui: localização estratégica, mão de obra abundante, barata e sem custos para capacitação, e benefícios fiscais. A teoria econômica regional diz que assim que esses benefícios não forem mais interessantes, como a empresa veio, ela pode levantar vôo do dia para a noite. Principalmente, porque há pouco comprometimento com Jequié: as decisões técnicas, gerenciais e financeiras são providas pela matriz, as atividades desenvolvidas não passam de simples rotinas de montagem - o que não é tão interessante na era onde o conhecimento é o principal capital gerador de riquezas[bb].

Então, porque não apoiar as iniciativas locais em vez de dar maior prioridade e incentivo ao investimento que vem de fora? A resposta é simples: porque dá mais visibilidade, o impacto na mentalidade popular é maior, fez-se uma grande obra!!! Existem alternativas? Trataremos disso no nosso próximo encontro. Até lá.

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* Texto escrito em em Dezembro de 2003 para a Revista Contexto, de circulação municipal, coluna "Análise Regional".

Veja também:
Indústria de roupas vs Indústria de calçados (parte 2) - Existe uma terceira via?

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